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Retrocesso do Brasil na Conferencia sobre Energias Renovables
Fórum Brasileiro de ONGs e
Movimentos Sociais para o
A participação do Brasil na conferência
"Renewables 2004", que terminou no 4 de junho em Bonn, bloqueou
os avanços nas negociações internacionais para a promoção de uma
matriz energética global sustentável, com maior participação das novas
fontes renováveis de energia, surpreendendo a todos os países e instituições
presentes pela flagrante contradição com as posições e compromissos
que o país vinha assumindo nos últimos
anos. Como resultado do
posicionamento intransigente da delegação brasileira
liderada pela Ministra Dilma Rousseff, a conferência aprovou uma declaração
morna, que não estabelece compromissos e metas
claras para a sustentabilidade energética e inclui as grandes hidrelétricas
como energia renovável, ignorando
os seus enormes impactos sociais e ambientais.
A sociedade brasileira,
através do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente
e o Desenvolvimento (FBOMS) sente uma grande frustração com o papel do Brasil
na Conferência, que ressaltou o
estreito alinhamento da Ministra com a indústria internacional de construtoras de barragens e
a sua falta de vontade de dialogar
com as organizações não-governmentais
e movimentos sociais sobre alternativas à
destruição causada pelas grandes hidrelétricas no Brasil.
Esperava-se um papel muito mais construtivo do
governo brasileiro em Bonn, uma vez que o Brasil
foi o autor da proposta de aumento de participação das
novas fontes de energias renováveis - energia solar, eólica,
biomassa sustentável, das
marés, geotérmica e pequenas
centrais hidrelétricas - na matriz energética mundial até
2010, apresentada na Rio + 10 em Joanesburgo no ano de 2002, pelo então
porta-voz do Brasil para a questão, Prof.
José Goldemberg. O fracasso das
negociações de Joanesburgo na área
de energia foi o que levou países como a Alemanha e o Brasil a liderarem um
processo internacional que desse
passos adiante na promoção de uma política energética global sustentável, e assim mais de
100 países aderiram ao processo da conferencia sobre energia renovável
em Bonn.
Mas na Conferencia Mundial em Bonn, retrocedendo ao autoritarismo da ditadura militar,
quando o Brasil e as instituições financeiras internacionais priorizavam
a construção de mega centrais hidrelétricas sem debate público, a
Ministra defendeu a inclusão da hidreletricidade
gerada de forma centralizada, não admitindo nas
negociações qualquer restrição ou qualificação ambiental ou social
a estes empreendimentos. Foi além quando apoiou
a Uganda para que nem sequer
as recomendações da independente
Comissão Mundial de Barragens -que considera
uma avaliação de outras opções para água e energia e a discussão
com a sociedade fundamental para garantir a sustentabilidade de hidrelétricas
-, fossem adotadas como critério. Mais surreal foi a participação da Ministra em uma mesa
redonda sobre Financiamento, onde defendeu os financiamentos públicos para as
grandes hidrelétricas, enquanto o presidente do Banco Interamericano de
Desenvolvimento, e oficiais do Banco Mundial e do Banco Europeu de Reconstrução
de Desenvolvimento, a advertiram sobre seus impactos e recomendaram que ela "conversasse com as ONGs".
O Grupo
Trabalho Energia do FBOMS co-publicou a declaração "12
razões para excluir as grandes barragens das iniciativas para Energias renováveis", assinada por
260 organizações de mais
de 60 paises, e traduzida abaixo. Representantes das organizações
do FBOMS presentes em Bonn foram fundamentais na tentativa de diálogo
entre as entidades da sociedade civil da América Latina e o governo
Brasileiro, e foram testemunhas da surpreendentemente retrograda posição do Brasil, que em muitos momentos
assumiu o papel de porta voz da região nas negociações em Bonn.
No Brasil as grandes barragens já deslocaram
mais de 1 milhão de pessoas, inundaram 34.000 km2
de terras agricultáveis e florestas. Mais preocupante é o fato
de que 64% do potencial hidrelétrico restante no Brasil encontras-se
na Amazônia, e que o país está priorizando o represamento dos grandes
rios da região, como o Araguaia, Xingu, Tapajós,
e Madeira. Antes de planejar medidas
de eficiência e racionalização
do uso de energia em todos os níveis, de
redução das perdas de transmissão, de repotencialização
das hidrelétricas velhas e de
maior participação nas novas
renováveis, o Governo Lula vê como prioritários
os megaprojetos de hidreletricidade que devem implicar
enormes impactos na diversidade biologica e nas populações
ribeirinhas e indígenas. Somado a isso,
não descarta a intenção de construir mais uma usina nuclear (Angra III)
e de expandir a geração a carvão
mineral no sul do Brasil.
As organizações e movimentos sociais Brasileiros se vêem ainda mais frustrados por terem acreditado que o Governo Lula seria um governo comprometido com as causas socioambientais e com o debate democrático sobre as questões de desenvolvimento sustentável, onde o acesso à energia, produzida de forma descentralizada, ecológica e socialmente apropriada, utilizada e distribuída de forma racional e gerenciada com controle social, é uma questão chave.
D3E Uruguay. Junio 2004.
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